20090629

inominável

O amanhecer era sua erupção. Despertava seu coração com pulsações mais intensas, que se estendiam por todas as artérias do corpo. Enquanto ela abria os olhos para o cotidiano com a disposição de quem nunca fugiu de nada na vida, o relógio na parede continuava o trajeto que fazia diariamente.

Ela existia só num pequeno piso de cores mortas de um edifício de cinco andares onde apenas viviam outras poucas pessoas; ou nisto acreditava. O barulho que poderia incomodar pelas manhãs vinha da rua. Um ou outro carro, um ou outro cachorro, uma ou outra alma. O resto, as nuvens do despertar, se dissipava antes de chegar à sua inquietude: os golpes que o coração realizava já eram suficientes para o tormento do alvorecer. Mas era o que aplaudia. Fazia com que resistisse pela sobrevivência, mesmo que fosse monótona. A freqüente estabilidade dos batimentos cardíacos matinais lhe mostrava o que nunca soube contemplar, as sensações amargas e doces da vida em sua intimidade. Porém, se dispersava. O tempo voava enquanto abandonava seus lençóis, abandonava os odores noturnos ao banhar-se, abandonava a introspecção do relógio da parede em suas veias. Era acompanhada dele que ouvia os incessantes movimentos da revolução em seu organismo. Quando se permitia invadir as proximidades do que ali dentro repercutia, tudo começava a mudar.


Na exterioridade, já não escutava com tanto vigor seu próprio corpo. Enquanto a cidade se encontrava em buzinas e jornais, para ela, tudo se resumia a um único estrondo que emudecia seu coração. Não porque deixava de atuar, mas se calava frente a tanto excesso. Fora de si, tentava gritar para se sentir vivo, mas ao mesmo tempo se encontrava inútil ao transborde. Para ela, nunca o era. Embora não o escutasse como conseguia em seu apartamento, sabia que ele estava ali, comandando todas as direções de seu sangue, suportando seus olhares ao revés. Era assim que ela se reconfortava: olhando ao revés. Para outros olhares, os de nitidez esporádica, ela somente via aos produtos de supermercado. Laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Os passava pela caixa registradora e os cobrava em sucessões seguidas até alcançar oito horas consumadas. Oito horas sem escutar a si mesma. Oito horas de ausentes corpos fazendo fila em seu silêncio, que persistia com a vontade de voltar ao seu apartamento e escutar enfaticamente e repetidamente, o que a fazia sentir-se diariamente pertencente a algum lugar. No entanto, depois que retornava ao simples entusiasmo de voltar, a noite se havia transformado na invasora de todos os metros quadrados: até da ilesa parede de seu relógio.

Todos os dias ela tinha a mesma sensação: a de retornar a casa depois de anos em algum país inóspito e, ao mesmo tempo, de desalento. Ao passar pela porta de entrada, sentia a transformação: suas artérias voltavam a palpitar, mas agora jaziam mais frouxas. Talvez fosse pelo cansaço acostumado dos ouvidos – pela interação da cidade – o então o cansaço do corpo, ordenando a inércia momentânea, embora ela não soubesse exatamente como explicar o significado de inércia. Poderia ser, meramente, o sentar-se ao lado do relógio na parede, como o cometido habituado. Mas neste dia idêntico a todos os outros, enquanto escutava os ponteiros do coração, se sentiu na extremidade de seu apartamento, onde tudo se resumia a pulsar em suas unhas. O relógio, até agora imune a qualquer alteração do ambiente, começava a desistir. Enquanto isso, ela o observava e descobria, de repente, a invasão que aquele objeto inanimado e dinâmico havia feito em sua profundidade.

O tirou da parede. Encontrou-se, então, com o relógio em mãos e observando a inconfundível marca feita em seu templo, que firmemente permaneceria em sua existência. Não sabia se rogava para que os ponteiros continuassem vivendo ou se os queria mortos antes que ela alcançasse o mesmo fim. Com suplício, sentia seu corpo agora mais próximo de si mesmo, mas somente conseguia advertir ao relógio, e escutá-lo fraquejar. Seus ponteiros iam mais lentos, levando menos segundos na companhia do passar do tempo. Ela imaginou, então, que aquilo poderia durar até o amanhecer que sucessivamente almejava e se sentou à beira da cama apegada ao dono do pulsar de seu corpo. Estava equivocada. Já não tinha forças para se levantar e o som da erupção que vinha todas as manhãs agora se tornava inaudível. Ela ia com ele, se desfazendo com o rumor da noite e a crescente mudez colateral.

Ao concretizar-se a paralisação do tempo, ela se viu paralisada também. Se todo o contexto da vida que se lembrava caminhava ao lado do que ouvia de seu coração, como agora estaria viva se ele jazia imóvel, quieto, sem fazer nenhum ruído que fosse? Reproduziu, com a irreconhecível inércia, a atuação sistemática do ao redor, mas algo lhe dizia para levantar. Reconheceu o corpo morto, assim como o seu também se contemplava. No entanto, se olhou no espelho e, como a uma miragem, obtinha os mesmos movimentos que via outros realizarem, os que passavam sempre acompanhados de laranjas, couves, garrafas de cerveja, embutidos. Estava morta, mas agora era capaz de sair, em efetivo, às ruas: já que seu coração se havia calado.

4 comentários:

Cá Cipullo disse...

rs, é engraçado esse pedido, diante da caixa de texto em branco: faça um comentário!

eu faço: achei o tezto incrível, como sempre acho.
me encontro nas suas coisas escritas, sempre.
e morro de saudade, delas, e de vc...


minha amiga talento!
te amo

Renato Alt disse...

Como você disse no Aperte, eis aqui um outro exemplo, tão igual e tão diferente, de uma solidão avassaladora e, como tão perfeitamente batizou esta obra, "inominável".

É quase uma crueldade contra nós mesmos parabenizá-la por este texto... entretanto, você não nos dá outra alternativa...

Parabéns.

JOANA disse...

'e uma falta com R. maiusculo!

mais curtidas facebook disse...


excelente post!