20100322

impermeável

Sempre acreditei na permanência do amor. De como, seja tórrido ou temporal, o tempo não merece nenhuma culpa e pode prosseguir aproximando-o ao intacto. Não acredito que algo que nasça sem pretensão e cresça em forma de invasão mereça ser desconsiderado, mesmo que, na prática, tudo pareça tão irracional. É irracional. Se dar conta de si mesmo já é, muitas vezes, um caminho atravancado, dividir-se pelo equilíbrio de dois é determinar-se em dobro. É irracional mas, contraditoriamente, é preciso coragem. Coragem para dar a cara a bater por algo contemporaneamente mutável. Idêntico aos seres humanos, mas definitivamente brusco.

Passamos por transições que, quer queira ou não, levam dúvidas e certezas de um lado ao outro até atingirem a próxima vírgula. O amor, nem sempre. Frente à personalidade múltipla que acarreta, é infiel a si mesmo. Por isso a violência de uma diferença num domingo cansado do verão. Mas, deturpadamente, luta. Porque não há outro fim nem início, ele é único e, assim como pretende, intransitório. Até segunda ordem surgida da lógica de que é melhor ser um só.

Por enquanto. Um conceito que convence por apenas alguns meses. Não acredito na permanência da solidão, embora sejamos sós e embora a base empírica demonstre que o amor não é de completa compreensão, principalmente em períodos de enchente. Não o é nunca, mas há a perseverança do “achismo” e a humildade do voluntário. Dos donos da verdade aos ávidos por descobertas, o amor é uma variável de longas-metragens água com açúcar e copos americanos em botecos centrais. Pode terminar irreverente, incessante, incoerente. Mas permanece líquido em sua instabilidade.

Guardo como infração todo o amor que tive, mesmo que diverso, no passado. No presente, o revejo em todos os estados físicos que contemplam o anseio, a estupidez e o correio. É como se o amor fosse uma carta escrita por Nelson Rodrigues e Clarice Lispector, revigorando uma combinação indeferível, mas apta ao encontro. É preciso audácia, para que os segundos não se pretendam sós, mas de que sustento vivem os nós a não ser daqueles que desembocam a desatá-los?

Não deixei de acreditar na permanência do amor. Porque o encontro, unido ao indecifrável, é desenfreada primavera. A alergia ao pólen e o apego das flores. Mas se sobrevive, se frequenta. O que ele mais precisa, da maioria dos suplícios, é liberdade da penúria própria dos indigentes; e se tornaria libertário de si mesmo, por meio do entrelace pertinente.

2 comentários:

A beleza do erro puro do engano da imperfeição disse...

Menina que escreve lindo!!!

Marília disse...

que lindo re! olha tenho um blog tb.. mas nao chega nem aos pes do seu hehe
marilia-m.blogspot.com
kisses!